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EL CABALLERO DE LA ESPERANZA 

26 de marzo del 2004

A Guerrilha do Araguaia e as mulheres do Brasil

Myrian Luiz Alves
Rebelión

Para Luzia Reis, a Baianinha

Na dia 4 de março, matéria do jornalista capixaba Leonêncio Nossa, em O Estado de S.Paulo, trouxe a revelação de Sebastião Curió de que Dinalva Oliveira Teixeira, a Dina, teria morrido no dia 24 de julho de 1974.

Em 1993, relatório da Marinha apontava que Dina "teria sido morta em Xambioá", em julho daquele ano, mas não indicava o dia, e o Exército, do qual fazia parte o então agente Marco Antonio Luchini, o Curió, nada dizia sobre a mais conhecida guerrilheira do Araguaia. Para a população do Araguaia, porém, Dina não morreu.

Para os pesquisadores da Guerrilha, fatos como esse impressionam pela frieza e pela maneira como a História do País é tratada: informações sérias são reveladas e pouco se faz pela reconstrução desta luta tão bela e cruel pela redemocratização do Brasil.

Dina, geóloga nascida em Castro Alves (BA), vivia com seu marido Antonio Monteiro Teixeira, também geólogo da Universidade Federal da Bahia, no Rio de Janeiro. Os dois integravam a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e Tecnologia - SBPC. Na militância comunista, faziam trabalhos sociais nas favelas cariocas. Juntos, foram para a região de Abóbora, sul do Pará.

A lenda que mantém Dina viva na memória da população de toda a região onde se desenvolveu a Guerrilha, aponta que a vice-líder do Destacamento C teria sido a primeira moça a mergulhar de biquíni nas águas do rio Araguaia.

As mulheres lembram que isso aconteceu logo depois que Dina chegou por lá.

Meses depois, era em sua porta que as pessoas batiam, mesmo de madrugada, para que ela fosse fazer partos ou prestar socorro aos necessitados. João Carlos Hass, Dina, Luzia Garlippe (Tuca), Paulo Rodrigues, Paulo Roberto (Amauri) e tantos outros ficaram na memória justamente por essa qualidade: o auxílio médico e certeiro à população local.

Hoje, ao circular no Araguaia, é comum encontrar pessoas que contam que Dina fez isso, Juca fez aquilo, como Tuca as tratou, que Amauri ficava na cabeceira das parturientes, esperando com paciência o momento de retirar os bebês. Acarinhava, conversava, acalmava as futuras mães e recebia os novos moradores com carinho de um pai fraterno. Antes, Amauri era bancário em Belo Horizonte.

A pesquisa sobre a Guerrilha aponta que talvez tenha sido o doutor João Carlos o responsável por esse espírito humanista. E isso teria sido adquirido por todos os camaradas que ali iriam participar dos combates. Ao mesmo tempo, ao conhecer a população do sul do Pará, do Maranhão e norte do Tocantins, pode-se concluir que ali houve uma permuta, já que o carinho transmitido por aquela gente traz a sensação de que o povo brasileiro é bom.

É tão bom que não esquece aqueles amigos e nos faz sentir vontade de conhecê-los, ou feio sentimento de inveja, por não ter tido a sorte deste convívio.

Há algumas semanas, como biógrafa de Líbero Giancarlo Castiglia, o italiano Joca, vi lágrimas nos olhos de Eduardo, seu ex-vizinho na Faveira. "Sinto saudade deles, era gostoso chegar na casa do Joca e de dona Maria (Elza Monerat) e tomar aquele café diferente (eles não colocavam o açúcar direto na água, como é costume na região) e depois um ajudava o outro, nas coisas de casa, na minha roça, e eles trabalhavam o tempo todo, sempre arrumavam algo para fazer. Sinto falta daquela amizade."

Otacílio, o Baiano, o primeiro prisioneiro da região, liga todos os anos para o diretório carioca do PCdoB para cumprimentar dona Maria em seu aniversário. Para ele, nem importa se vai conseguir falar com ela, o que vale é o recado, o gesto.

Para ouvir as histórias de Lúcia Maria, a médica Sônia, na região de São Domingos, é preciso ser forte, é quase impossível conter o choro. E não é apenas pelo fato do que tenha ocorrido, da forma bárbara como se deu seu combate e sua morte, mas por causa da saudade por ela deixada. Como diz o filho de dona Margarida, que deveria ter nascido por suas mãos: "homens que foram o sonho, quando o sonho fugia dos homens", em poema dedicado à Sônia e seus companheiros.

Ao conversar com militares que atuaram nessa região, a beleza de Jana Barroso (Cristina) sempre é destacada. "Foi a mulher mais bonita que já vi", dizem. Na tese de Romualdo Pessoa isso é lembrado: "quando a polícia chegou, pensei que o pai da Cristina tinha mandado eles aqui para levar ela de volta", lembra um amigo do destacamento. Ou ainda, "era a flor da subversão na boniteza", como registra um morador. Tuca, presa em 1974 na Bacaba, ainda recomendou aos filhos do ex- sargento Santa Cruz que não pusessem sementinhas no bico do papagaio e depois colocassem em suas bocas novamente, pois isso poderia dar doença. Tuca, ex- enfermeira-chefe do departamento de doenças tropicais do Hospital das Clínicas de São Paulo, loira alta e bonita, andava sempre acompanhada da japonesinha Chica (Sueli Yomiko), assistente da Comissão Médica da Guerrilha, como lembram as mulheres da Palestina. Telma Regina, a Lia, pequena em sua estatura, carinhosa com seus amigos e grande guerrilheira que, todos sabem, foi presa, mas somente seus captores podem contar o que se passou depois.

Ah, a Rosinha (Maria Célia Corrêa), tão delicada quanto corajosa. Uma moradra, sua amiga, conta a Romualdo o último diálogo: "Rosinha, se eu pudesse, te enterrava no chão de minha casa, deixava só sua boquinha para fora para te dar comida, só para esse povo (militares) não te matar". E ela respondia: "Não fique triste, estamos aqui para isso mesmo, é para lutar e morrer também".

A baiana Diná (Dinaelza Coqueiro) deixou fama de braba, valente, daquele tipo de mulher que mesmo no infortúnio da covardia não levava desaforo, pois, se fosse preciso, xingava mesmo. Presa, foi esse o seu comportamento, o de uma guerreira contra a crueldade impetrada contra o povo que os havia recebido com simplicidade e amizade.

A história de Dinaelza se confunde com a de Áurea Elisa Valadão. Ela, dizem, ganhou fúria de leoa, como registra o jornal O Estado do Maranhão, em fevereiro de 2002.

Professora das crianças de Caiano e Xambioá, Áurea foi vista por muita gente quando presa em 1974. Amaro Lins e sua companheira Neuza registraram esse fato logo que ele saiu da prisão. Amaro atestava que Áurea chegou a datilografar seu depoimento.

Os registros militares de 1972 afirmam que os guerrilheiros "construíram e mantém uma escola para as crianças". A escola era da estudante do Instituto de Física do Rio, Áurea, famosa na região por sua facilidade em lecionar matemática.

Maria Lúcia Petit deixou, ainda no início da Guerrilha, sua doçura de flor. É a única militante do Araguaia identificada. O encontro de seu corpo, em 1991, provava que era possível encontrar os companheiros. Cinco anos depois de Elza ter afirmado que o corpo era de Maria Lúcia, a Unicamp a identificou. A morte da ex-dirigente da UNE, Helenira Rezende, a Fátima, foi denunciada pelas romarias ao local onde teria sido enterrada. Alegre, Helenira acreditava numa sociedade socialista. Saiu das torturas do Dops paulista para a liberdade das matas do Araguaia. Lutou olhando nos olhos de seus algozes.

Essa guerrilha traz a iniciativa de, pela primeira vez na história, reunir num mesmo local tantas mulheres de vários estados. Entre as que já estavam, mas não chegaram a participar dos combates, as que tentaram chegar e as que sobreviveram após a prisão, existem seis. Apresenta ainda o fato de que 88 pessoas ao todo, no início de abril de 1972, enfrentaram mais de oito mil componentes das três Forças Armadas ao longo de três anos. A última a ser morta, segundo os militares, foi Walquíria Afonso Costa, de maneira covarde, como aconteceu com vários companheiros, porque já estava presa.

Val, mineira e pedagoga, tocava acordeon, instrumento que ela carregou para o Araguaia, quando para lá seguiu com seu companheiro Idalísio Soares Aranha, bom tocador de violão. Nos fins de 1974, essa professora obrigava homens brutos a persegui-la na mata. E foi ela, uma mulher, a última resistente dessa longa história.

Viva, em Salvador, Baianinha revela que seu sonho, após a prisão, era reencontrar seus companheiros. Recorda o carinho de Dina tratando de feridas na perna de Antonio, que já não era mais seu marido. Cuidava dele com o carinho de uma mãe. Quando a comida era feita por Dina, lembra Luzia, todos ficavam felizes, o clima era de festa.

Graças às pessoas como Luzia Reis, e durante esses 30 anos, às memórias de Elza, é possível recontar essa história também por outros ângulos. Como diz Luzia, "fui uma combatente em meu país". E agora, estamos todos aqui, vivendo, pela primeira, um outro ineditismo histórico: ter representantes da classe trabalhadora e de tantas lutas dirigindo o Brasil.

Nesse mês de março, fica aqui para Luzia essa homenagem. Sua foto, presa, eternizou o olhar de todas as que ali tombaram por dias melhores. Cabe a todos nós provar que a coragem de Dina e suas camaradas não foi em vão. E uma das experiências mais incríveis na vida de uma pesquisadora dessa história é poder ter a honra de conhecê- las, vivas ou eternamente lutadoras em sua morte, companheiras, amigas, sensíveis, inteligentes, cozinhando, fazendo um parto ou empunhando um fuzil. Se hoje o Araguaia não as esquece, nossa obrigação é levá-las para todo o Brasil. O Brasil, nossos filhos e netos é que agradecem.

18 de março de 2004
*Myrian Luiz Alves é jornalista / pesquisadora da Guerrilha do Araguaia

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